MOMENTOS...
Escrevo-te já tarde, hoje. Porque me apeteceu subitamente.
Os meninos dormem e a casa está muito tranquila, a preparar mais um amanhã duro, cheio de horários, de compromissos e de pessoas que me pedem tempo (do meu tempo), o tal que não tenho para mim. Chegam e partilham alegrias (poucas), tristezas (muitas) e, nas horas velozes do meu dia, tenho, por esses motivos que me vão surgindo sem aviso prévio, variações emocionais que me desgastam muito e que fazem ter momentos como este, em que sinto uma angústia indizível.
Realço que não me estou a queixar. Não sei, no entanto, porque motivo me pedem as pessoas coisas incríveis, difíceis para mim (que não tenho tempo) e às quais anuo, com o meu melhor sorriso ( a minha bisavó Isabel, uma beirã rija e de olhos claros, dizia-me que um sorriso bonito fazia lembrar um anjo e anjo, na minha infância, era o mais parecido com beleza, bondade, ternura, paz e um pouco de magia).
A educação católica que recebi faz-me esperar (de forma mais ou menos pueril, admito) que estes "sacrifícios", que me percorrem o dia, tenham retorno para mim, numa qualquer espécie de graça, boa sorte, felicidade, eu sei lá...e penalizo-me por esta banalidade da minha existência ... e por não ter a grandeza necessária para me despir desta troca, que no fundo de mim espero diariamente. E que, claro está, não vem.
Nestes momentos (que classifico de idiotas, nesta minha resistência permanente à debilidade) percebo me faltam os meus (agora) fantasmas mais queridos. Os que povoam a minha vida. Aqueles que me deram carinho, segurança, alegria, amor e que me "fizeram" ser: os meus avós, o meu tio, o meu primo-irmão, o meu querido pai e o meu marido. Todos ausentes mas tão presentes na minha vida, que lhes consigo sentir a falta a cada momento.
Não me estou a queixar. Nem sequer a lamentar. Até porque estou certa que, em todo o meu dia, não transpareceu, uma única vez, tristeza, amargura, fragilidade, ou qulquer estado de alma mais próximo da melancolia.
Amanhã tudo se repetirá e todos voltarão a contar comigo. Porque sou fixe (como dizem os meus alunos) e uma mulher muito corajosa (como dizem todos os outros). Pois...